Do excepcionalismo ao pessimismo

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Benjamin Graham, ao criar a famosa parábola do Sr. Mercado em “O Investidor Inteligente”, nos apresentou um investidor fictício extremamente emocional e volátil, que oscila entre otimismo exagerado e pessimismo absoluto. Sempre me lembro do bipolar Sr. Mercado quando há uma guinada de humor nos mercados, como a que presenciamos nos últimos dias. Desde a eleição de Trump até recentemente, o consenso do mercado era a tese do excepcionalismo americano, embasada no PIB em crescimento, um mercado de trabalho robusto, a inflação desacelerando, empresas superando expectativas de lucro e bolsas renovando máximas históricas. Mas, da noite para o dia, o Sr. Mercado enfureceu, e o S&P 500, principal índice americano, entrou oficialmente em território de correção, acumulando uma queda de aproximadamente 10% desde seu último topo recente.

O principal catalisador dessa reviravolta tem sido o retorno das tarifas comerciais, impulsionadas por Donald Trump. O anúncio de taxação mais agressiva sobre importações reacendeu os temores de uma guerra comercial global, especialmente contra países com os quais os EUA mantêm déficits comerciais significativos. Além disso, cresce a preocupação de que essas medidas possam desacelerar a economia americana, elevando o risco de uma recessão e trazendo pressão inflacionária – um cenário clássico de estagflação, nada favorável para os ativos de risco. A reação do mercado não se deve apenas ao impacto econômico direto das tarifas, mas também à incerteza que elas trazem para a política econômica e para as cadeias produtivas globais.

Para agravar ainda mais o mau humor do nosso velho instável, algumas associações com a Smoot-Hawley Tariff Act de 1930 começaram a circular nos últimos dias. Para quem não conhece, Smoot-Hawley foi uma lei que elevou drasticamente as tarifas sobre milhares de produtos importados nos EUA, agravando a Grande Depressão de 1929 ao desencadear retaliações comerciais e uma forte contração no comércio global. Naquela época, porém, os Estados Unidos tinham um superávit comercial significativo e uma população incapaz de consumir tudo o que era produzido internamente, tornando a economia altamente dependente das exportações. Hoje, a realidade é oposta: os EUA apresentam um dos maiores déficits comerciais da história, importando muito mais do que produzem. Comparar os efeitos da Smoot-Hawley com os da atual política tarifária de Trump pode ser um erro, mas isso não significa que as tarifas sejam inofensivas – tampouco que eu tenha deixado de acreditar no liberalismo econômico.

Mais do que uma política puramente protecionista, as tarifas impostas por Trump parecem ser um instrumento duro de negociação. O caso do Canadá é um exemplo claro: inicialmente, o governo americano anunciou um aumento significativo nas tarifas sobre o aço e o alumínio canadenses e, diante da retaliação de Ontário com uma sobretaxa de 25% sobre a eletricidade exportada para os EUA, ameaçou elevar ainda mais as barreiras. Em resposta, o Canadá recuou rapidamente e ajustou sua política energética. Mesmo que essa estratégia esteja longe de ser um jogo “limpo”, o que isso sugere é que a guerra comercial pode não ser o objetivo final do presidente Trump, mas sim uma tática para forçar negociações mais favoráveis aos EUA. Ainda assim, os mercados detestam incerteza, e essa abordagem apenas alimenta ainda mais a volatilidade recente.

Howard Marks, em seu conceito do “pêndulo dos mercados”, também nos ensina que os mercados raramente estão em equilíbrio: eles oscilam entre extremos de otimismo e pessimismo. O desafio para os investidores é saber reconhecer quando o pessimismo se torna exagerado e precifica ativos de qualidade abaixo de seu valor justo. Não vejo fundamentos para uma guinada econômica tão drástica nos EUA, embora a guerra tarifária tenha sim consequências negativas iniciais tanto para a principal economia do mundo quanto para o restante. Ainda assim, uma percepção mais cautelosa, diante de uma expectativa extremamente otimista no passado recente, pode até ser saudável. Estamos muito mal acostumados com mercados acionários americanos ascendentes e sem volatilidade. Isso não é normal! Não sejamos tão instáveis quanto o Sr. Mercado. Sua volatilidade pode ser angustiante, mas para aqueles que mantêm a racionalidade, ela também oferece oportunidades que não víamos há muito tempo, especialmente em alguns papéis de tecnologia (que eu não tinha coragem de ter até então).

*Isso reflete a opinião pessoal da escritora e não pode ser interpretado como recomendação de investimento.

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