O final da segunda guerra mundial foi seguido de comemorações por quem não esteve diretamente envolvido nela, porém àqueles que estiveram em campos de concentração, os familiares das vítimas, as cidades, as estruturas públicas levaram muitos anos para se reconstruírem e nunca mais foram as mesmas. A sociedade adoeceu com os temores, a necessidade de mudanças, com os sons, a dor das perdas e muitos foram os que nunca mais recuperaram a sanidade. A guerra acabou e ficaram os calos, as cicatrizes e o olhar desprotegido.
A pandemia teve um efeito ainda mais nefasto do que as duas terríveis guerras mundiais porque envolveu toda a humanidade e a sequência, é um longo período de incertezas, de temores por novos vírus, de dor e sofrimento pelos que perderam a vida e pelo estranhamento com àqueles que permanecem com sequelas severas. Mesmo os que desafiaram o racional e afirmam não confiar na ciência, foram e são medicados, porém até hoje parecemos incrédulos com o resultado de uma catástrofe que deixou um rastro de inquietações, incertezas, fobias e ansiedades.
Nossa saúde mental, ainda gravemente afetada, foi novamente atingida pelas enchentes de 2024 que ainda mantém vitimados muitos que perderam bens materiais e pior, a esperança. Depois de 11 meses, aparentemente, tudo voltou a normalidade e o funcionamento institucional das pessoas e Cidades está restituído. Porém, a miséria humana, econômica e social perdura oculta na superficialidade das relações que se estabelecem desde lá.
Quem não sofre com a perda de afetos ou a ausência das pessoas queridas certamente não está vivendo a plenitude de sua habilidade emocional. Todos os dias, nos deparamos com quem prefere vínculos com animais, ao invés de pessoas; com a futilidade das redes sociais, do que com um chimarrão em uma praça; com aparência forjada nas academias, do que com a profundidade da arte e da cultura; com a solidão, do que a construção de novos vínculos. Necessitamos compreender a amplitude do nosso adoecimento para buscar alternativas de solução. E quando não percebemos o mal que nos causamos, merecemos um pouco de atenção de quem percebe nosso adoecimento nos trazendo de volta para a vida de fraternos vínculos familiares, de amizade e afetos.